No fim de semana tive uma crise de pânico. 

Era domingo de manhã e eu estava deitada na cama de casal ao lado do Igor que tinha conhecido no sábado. Eu tinha passado a noite no apartamento dele, fazendo aquelas coisas que adultos fazem quando se conhecem e se sentem instantaneamente atraídos um pelo outro e também quando se sentem confortáveis o suficiente para tirarem a roupa à meia-luz.

Eu tive uma leve crise de ansiedade porque no dia anterior havia dito, com muita convicção, que não queria mais fazer esse tipo de coisa: conhecer uma pessoa e transar com ela. E começar a gostar dela. Eu queria colocar minha vida sentimental em standby. Reforcei o quanto estava focada em me manter emocionalmente estável e queria me concentrar no trabalho; disse tudo isso enquanto bebia mais um drink de melancia e gengibre e cara, eu estava tão confiante que poderia convencer qualquer pessoa que aquilo tudo realmente iria funcionar. Mas não consegui seguir esses planos 100% racionais nem por 48 hs. Porque 48h depois dessa conversa eu já estava na cama desconhecida ao lado de um cara semi desconhecido e semi nu que dormia tranquilamente enquanto eu entrava em pânico.

Esse fim de semana pode ser dividido em 5 fases.

Fase 1: sexta-feira, hora do almoço. Eu, totalmente racional, dizendo a um amigo que não queria ter dates por um tempo, porque esses dates costumavam ser uma draga emocional para a minha já combalida vida emocional. Eu estava saindo de mais um rompimento com mais um cara com quem poderia ter tido alguma coisa além de sexo alcoolizado, mas que não havia dado certo. Como sempre acontecia. Foi um pouco sofrido e eu estava querendo me preservar de sofrimentos futuros.

Fase 2: sábado fim de tarde. Eu, na janela do quarto, olhando o por do sol e contemplando meus planos para o restante do fim de semana: assistir ao futebol pela tv, beber uma garrafa inteira de vinho, dormir, acordar de ressaca no domingo e dar banho nos cachorros. Fim. Eram planos simplórios, mas eu estava disposta mantê-los e não me sentir muito mal por causa deles.

Fase 3: sábado à noite. Eu, no banheiro, me maquiando e tentando decidir se esse date de última hora não seria um grande, um terrível erro de julgamento. Além de todas as questões comuns a esse tipo de situação (ele poderia ser bem mais feio do que na foto, poderia ser escroto, poderia beijar mal ou ser um tédio de pessoa), havia o ponto de eu estar me contradizendo, mais uma fucking vez. No dia anterior eu tinha dito que não queria mais fazer aquilo por um tempo, porra. Por que essa necessidade de ter um encontro e ser validada por um completo estranho? E eu não sabia qual roupa usar, estava sem dúvida numa crescente de pânico.

Fase 4: sábado, 10 minuto antes do Igor me buscar em casa. Eu, no total controle das minhas emoções novamente (quase), repetindo como num mantra que PORRA, eu sou interessante, bonitinha, tenho um emprego legal, fiz coisas legais na vida e que se o date fosse um horror completo eu poderia simplesmente sair pela porta e pegar um táxi de volta para casa. E que eu não, eu DEFINITIVAMENTE NÃO ia transar no primeiro encontro. Mas só por precaução vesti uma calcinha maneira.

Fase 5: domingo, 11h da manhã. Acordada desde as 9h, esperando o Igor ao lado também acordar para comermos alguma coisa. Eu não comia nada fazia umas 18h, meu estômago estava colado nas costas e estava enlouquecendo porque um pontinho vermelho na minha virilha denunciava um pelo inflamado na minha quase-perfeita-depilação-completa. Eu não tinha levado nenhum pó ou base e estava preocupada com minha aparência sem maquiagem. Queria tomar um banho, mas não tinha uma calcinha limpa para trocar. Não tinha desodorante feminino no banheiro e deus me livre usar um desodorante masculino com a palavra SPORT no rótulo.

E eu estava preocupada por ter transado de cara, no primeiro encontro. Ele era legal e provavelmente não me levaria mais a sério porque… bom, o que mais eu poderia oferecer além de uma noite de sexo? Eu, a menina-não-tão-magra com uma depilação-quase-perfeita-se-não-fosse-aquele-pelo-inflamado e com a calcinha que… bom, eu tinha calcinhas melhores. Se eu soubesse que iria transar teria vestido alguma das melhores. E teria levado uma calcinha limpa para trocar, remédio para dormir, desodorante, maquiagem, talvez uma muda completa de roupa. Eu de verdade mesmo achei que iria para um date e não iria transar. Provavelmente eu estava frustrada comigo mesmo porque continuava tentando me convencer a fazer coisas e ter comportamentos que não eram condizentes com a minha realidade. Não transar de cara não faz parte de ser quem eu sou.

Seria isso? A terapia da semana com certeza ia durar mais que quarenta minutos.

Finalmente ele acordou e eu já não queria comer nada. Queria ir para casa, tomar banho no meu chuveiro, usar o meu desodorante feminino e colocar uma linda calcinha limpa e passar uma pomada naquele pelo inflamado que havia arruinado todo o meu repertório de movimentos sexuais incríveis que tinha usado durante a noite.

Mas também, foda-se. Que cara vai querer ficar com a menina que transa na primeira noite?

* Igor, não precisa responder a este e-mail. Não fique chateado comigo. É como me sinto. Apesar da noite ter sido maravilhosa.